" A inquietude não deve ser negada, mas remetida para novos horizontes e se tornar nosso próprio horizonte."
Edgar Morin

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

DESASTRE DE FUKUSHIMA FORÇA O MUNDO REDISCUTIR A ENERGIA NUCLEAR

"...Em Fukushima depois da explosão no reator 4, a radiação superou os limites legalmente toleráveis e a maioria dos 850 trabalhadores da usina foi retirada, permanecendo apenas uma pequena equipe - "os 50 heróis de Fukushima" para os jornais, embora sejam 180, trabalhando em turnos de 50 a 70. O derretimento parcial do núcleo parece ter acontecido nos reatores 1, 2 e 3 e, neste último, fogo e explosões sugerem que a carapaça de aço que protege o núcleo deve ter-se rachado. Além do reator 4, também os reatores 5 e 6 estão se aquecendo acima do normal. Para resfriá-los, tentou-se lançar água com ácido bórico de helicópteros ou com canhões d'água de repressão de manifestações, ideias antes descartadas pelo alto risco para os operadores, mas com poucos resultados. Cerca de 77 mil moradores foram removidos de um raio de 20 quilômetros. Os EUA acham pouco e ordenaram a seus cidadãos e militares afastarem-se 80 quilômetros - inclusive, por ironia, o porta-aviões nuclear Ronald Reagan, carregado de armas atômicas. A Espanha recomendou 120 quilômetros. Não se via situação tão trágica desde Chernobyl, em 1986, quando dezenas de engenheiros, operários e bombeiros morreram de envenenamento radioativo em dias ou semanas (e milhares de moradores a médio e longo prazo, principalmente por câncer de tireoide). Os japoneses estão mais treinados e protegidos, mas o traje especial só pode proteger o usuário da inalação de partículas radioativas. É inútil contra a radiação gama no ambiente.
Chernobyl tinha quatro reatores que geravam 4 mil megawatts e apenas um sofreu derretimento do núcleo. Os outros três permaneceram intactos e, apesar da continuação radioativa, continuaram a operar por muitos anos. Só em 1999, oito anos depois do fim da URSS, o governo da Ucrânia desativou de vez a usina. Em Fukushima 1, estão em perigo todos os seis reatores, que somam mais de 6 mil megawatts.
Por outro lado, os reatores de Fukushima 1, apesar de contemporâneos de Chernobyl (foram inaugurados em 1971-1979 e os soviéticos eram de 1977-1983), têm um projeto mais seguro. Além de menos sujeito a falha humana, o núcleo do reator tem blindagem de aço de 15 centímetros, inexistente em Chernobyl, e a reação é controlada com barras de metal (háfnio), menos inflamáveis que as de grafite usadas no reator ucraniano. Teoricamente, o derretimento do núcleo seria contido no subsolo para produzir apenas contaminação local, a menos que explodisse em contato com água subterrânea.
Mas os fatos mostram que a blindagem não é tão indestrutível o quanto se pensava, sem mencionar a possibilidade totalmente imprevista de um acidente de criticalidade nos reatores desativados. A avaliação da gravidade passou a ser de grau 6, com real possibilidade de chegar ao grau 7.
Mesmo na pior hipótese, o desastre não afetaria outros países além do Japão (os ventos sopram para o Pacífico e a distância até a América do Norte é tão grande quanto desta a Chernobyl) e é improvável que lance isótopos radioativos a altitude tão grande por tanto tempo e contamine uma área tão vasta quanto em 1986, mas isso pouco serve de consolo para a região de Fukushima, de densidade demográfica mais alta que a das regiões afetadas na Ucrânia e vizinhos há 25 anos. Pode ser preciso tratar e remover mais pessoas: no raio de 80 quilômetros do reator, vivem 1,9 milhão.
Ao contrário de Chernobyl, não foi falha humana, houve quem dissesse. Mas isso é discutível. A causa imediata foi o tsunami, mas a falha em preparar a usina para esse tipo de evento em um país sabidamente sujeito a fortes terremotos é ou não falha humana? O governo japonês ainda não decidiu se o terremoto foi ou não suficientemente "excepcional" para isentar a Tepco de responsabilidade legal pelas consequências. A disciplina do povo e dos trabalhadores japoneses ante a catástrofe têm sido, de fato, admiráveis, mas seus executi-vos não se mostram menos gananciosos e relapsos que os de outros países.
 Em consequência, o mundo inteiro revê a opção nuclear, tida nos últimos anos como aliada no combate ao aquecimento global. China e Brasil suspenderam os novos projetos, apesar de manterem as construções em curso (no caso brasileiro, só Angra 3, prevista para 2015). A Alemanha paralisou por três meses a operação dos sete mais antigos dos 17 reatores do país, um terço de sua capacidade nuclear. O fim da energia nuclear é improvável, mas novas normas de segurança aumentarão seu custo, que já subiu de mil dólares por quilowatt, em 1971, para 5 mil, nos anos 90. E substituí-la por gás ou petróleo pressionará a demanda e os preços de um produto já escasso, além de agravar a emissão de dióxido de carbono. Pesquisar fontes alternativas de energia tornou-se ainda mais urgente."
Antonio Luiz M. C. Costa/Revista Carta Capital