" A inquietude não deve ser negada, mas remetida para novos horizontes e se tornar nosso próprio horizonte."
Edgar Morin

terça-feira, 1 de março de 2011

RELATÓRIO PARA A UNESCO DA COMISSÃO INTERNACIONAL SOBRE EDUCAÇÃO PARA O SÉCULO XXI



A EDUCAÇÃO OU A UTOPIA NECESSÁRIA
Jacques Delors


(...)Nas últimas três décadas do século XX, além de notáveis descobertas e progressos científicos, numerosos países – chamados emergentes – supe­raram o subdesenvolvimento, enquanto o nível de vida continuou a progredir em ritmos bastante diferentes, conforme as vicissitudes de cada Estado.
E, no entanto, um sentimento de desencanto parece dominar o mundo e contrasta com as expectativas surgidas após a Segunda Guerra Mundial. É possível falar, portanto, das desilusões do progresso no plano econô­mico e social: eis o que é confirmado pelo aumento do desemprego e pelos fenômenos de exclusão social nos países ricos, assim como pela persistência das desigualdades de desenvolvimento no mundo. Com certeza, a humanidade está mais consciente dos perigos que ameaçam o meio ambiente; mas, ela ainda não se dotou dos recursos para solucionar esse problema, apesar das numerosas reuniões internacionais – por exemplo, a do Rio de Janeiro, em 1992 –, e apesar das sérias advertências decorrentes de fenômenos naturais ou de acidentes tecnológicos. De qualquer modo, o crescimento econômico a qualquer preço não pode ser considerado como a via mais adequada para permitir a conciliação entre progresso material
e equidade, entre respeito pela condição humana e pelo capital natural que temos obrigação de transmitir, em bom estado, às gerações vindouras.
Será que já extraímos todas as consequências desses fatos, no que diz respeito tanto aos fins, modalidades e recursos de desenvolvimento susten­tável, quanto a novas formas de cooperação internacional? Com certeza
que não! Eis o que será, portanto, um dos grandes desafios intelectuais e políticos do próximo século.
Essa constatação não deve levar os países em desenvolvimento a negli­enciar as forças motrizes clássicas de crescimento e, em particular, o indis­pensável acesso ao universo da ciência e da tecnologia, com o que essas
condicionantes implicam matéria de adaptação das culturas e de modernização das mentalidades.
Eis outro desencanto e outra desilusão para aqueles que haviam vislum­brado, com o fim da Guerra Fria, a perspectiva de um mundo melhor e empaz. E não basta, como forma de consolo ou de álibi, repetir que a história é trágica. Todos nós já sabemos ou deveríamos saber: se a Segunda Grande
Guerra fez 50 milhões de vítimas, como não evocar que, desde 1945, foram declaradas cerca de 150 guerras que provocaram 20 milhões de mortos antes e, também, após a queda do muro de Berlim? Riscos novos ou já antigos?
Pouco importa, as tensões permanecem latentes e explodem entre nações, entre grupos étnicos ou a propósito de injustiças acumuladas no plano econômico e social. Em um contexto marcado pela crescente interde­pendência entre os povos e pela globalização dos problemas, o dever de todas as autoridades constituídas consiste em avaliar tais riscos e adotar os recursos para superá-­los.
Mas, como aprender a conviver nesta aldeia global, se somos incapazes de viver em paz nas comunidades naturais a que pertencemos: nação, região, cidade, aldeia, vizinhança? A questão central da democracia é saber se desejamos e somos capazes de participar da vida em comunidade; convém não esquecer que esse desejo depende do sentido da responsalidade de cada um. Ora, apesar de ter conquistado novos espaços, domina­dos anteriormente pelo totalitarismo e pela arbitrariedade, a democracia tem tendência a debilitar-­se com o decorrer dos anos; como se tudo tivesse, incessantemente, de recomeçar, renovar­-se e ser  reinventado.
Como é que as políticas na área da educação poderiam ignorar esses três grandes desafios? Como é que a Comissão poderia deixar de sublinhar os aspectos em que essas políticas podem contribuir para um mundo
melhor, para um desenvolvimento humano sustentável, para a compreensão mútua entre os povos e para a renovação de uma vivência concreta da democracia?
Com esse objetivo, convém enfrentar – para superá - ­las em melhores condições – as principais tensões que, por não serem novas, encontram­-se no âmago da problemática do século XXI.
A tensão entre o global e o local: tornar-­se, aos poucos, cidadão do mundo sem perder suas raízes pela participação ativa na vida do seu país e das comunidades de base.
A tensão entre o universal e o singular: a globalização da cultura realiza­-se de forma progressiva, mas ainda parcialmente.De fato, ela é incontornável com suas promessas e com seus riscos: um dos mais graves é, exatamente, o esquecimento do caráter único de cada pessoa, de sua vocação para decidir seu destino e realizar todas as suas potencialidades, conservando a riqueza de suas tradições e de sua própria cultura que, se não forem tomadas as devidas providências, corre o risco de desaparecer sob a influência das
mu­danças em curso.
A tensão entre tradição e modernidade está relacionada com a mesma problemática: adaptar-­se sem se negar a si mesmo, construir sua autonomia em dialética com a liberdade e a evolução do outro, além de manter sob
controle o progresso científico. Com este espírito é que se deve enfrentar o desafio instigante das novas tecnologias da informação.
A tensão entre o longo prazo e o curto prazo, tensão permanente, mas alimentada hoje pela supremacia do efêmero e do instantâneo, em um contexto em que o excesso de informações e de emoções passageiras leva a uma constante concentração nos problemas imediatos. As diferentes propostas procuram respostas e soluções rápidas quando, afinal, um grande número de problemas exigem uma estratégia respaldada na paciência, consenso e negociação relativamente às reformas a empreender; esse é o caso no que se refere, precisamente, às políticas na área da educação.
A tensão entre a indispensável competição e o respeito pela igualdade de oportunidades. Questão clássica formulada, desde o início do século XX, tanto às políticas econômicas e sociais quanto às políticas educacionais.
Questão resolvida, em alguns casos, mas nunca de forma duradoura. Atual­mente a Comissão tem a ousadia de afirmar que o imperativo da competição impele um grande número de responsáveis a esquecer a missão que consiste em fornecer a cada ser humano os meios para realizar todas as suas potencialidades. Diante de tal constatação, e no que diz respeito ao domínio abrangido por este relatório, fomos levados a retomar e a atualizar o conceito de educação ao longo da vida, de maneira a conciliar a competição incentivadora com a cooperação fortificante e com a solidariedade que promove a união entre todos.
A tensão entre o extraordinário desenvolvimento dos conhecimentos e as capacidades de assimilação do homem. A Comissão não resistiu à tentação de acrescentar novas disciplinas, tais como o autoconhecimento e a busca dos meios adequados para garantir a saúde física e psicológica ou, ainda, a aprendizagem de matérias que levem a conhecer melhor e preservar o meio ambiente. E, no entanto, os currículos escolares estão cada vez mais sobrecarregados; nesse caso, será necessário fazer escolhas, com a condição
de preservar os elementos essenciais de uma educação básica que ensine a viver melhor pelo conhecimento, pela experiência e pela construção de uma cultura pessoal.
Finalmente – e, neste caso, trata­-se também de uma constatação per­manente –, a tensão entre o espiritual e o material. O ser humano – muitas vezes, de forma insensível ou sem a capacidade de exprimir tal estado
anímico – tem sede de ideal ou de valores a que, para evitar ferir alguém, atribuímos o qualificativo de morais. Compete à educação a nobre tarefa de suscitar em todos, segundo as tradições e as convicções de cada um, no pleno respeito do pluralismo, essa elevação do pensamento e do espírito até o universal e, inclusive, uma espécie de superação de si mesmo. O que está em jogo  é a sobrevivência da humanidade.