" A inquietude não deve ser negada, mas remetida para novos horizontes e se tornar nosso próprio horizonte."
Edgar Morin

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

RACISMO. A IGNORÂNCIA DO PRETO

Visitei o Bolg de Virgilio Brandão de Lisboa. Algo de impressionantemente de bom gosto e atualissímo. Abaixo evidencio uma de suas publicações:

Uma das grandes questões das sociedades modernas é, sem dúvida, o racismo patente ou latente. É, claramente, não um problema de culturas mas de falta de cultura; no limite, no caso de Carl Schmith, de excesso de cultura.Quem, sendo africano ou não caucasiano, já não foi vítima de racismo? Eu, já. O “preto”, o “negro” – dito com ânimo acintoso – ou o eufemístico “homem de cor” são expressões que têm provocado equívocos monumentais, violência gratuita e discriminações injustas ou desnecessárias.Não raras vezes é tida como inexistente – como a própria ONU reconhece. «As leis e as medidas nacionais para assegurar a sua eliminação são, em muitios países, inadequadas e ineficazes. Em consequência disso os grupos vulneráveis continuam a sofrer agressões enquanto os abusadores gozam de impunidade» – disse a Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Louise Arbour, durante uma reunião preparatória da Conferência de Durban sobre direitos dumanos de 2009 e que ocorreu no dia 22.04.2008 em Genebra,.Ao que tudo indica, muitos Estados continuam a não reconhecer a existência de racismo e xenofobia nos seus territórios. As razões para a existência do racismo são multiplas, assim como as da negação da sua realidade; como veremos.A ideia do “preto” jaze no plano da ignorância, na falta de conhecimentos básicos quer da física quer das ciências sociais, além de um défice de humanismo. A primeira ideia que assoma(rá) à mente de uma pessoa esclarecida – que tenha um conhecimento mínimo de física ou de história da ciência – é de que só um profundo défice cultural é que levará uma pessoa a chamar outra de “preta”.É que, basta(ria) uma leitura – ainda que de fontes secundárias – do pensamento científico de Newton, Leonardo da Vinci, Keppler e Einstein, assim como da produção científica contemporânea para se saber que cor é luz e energia. É uma questão de percepção da luz e da energia pelo olho humano.A “cor” preta não é, em si, uma cor, mas sim a sua ausência – isto é, não existe cor naquilo a que se denomina “preto”, como melhor se verá. O mesmo acontece ao falarmos do branco, pois este – tido como a pedra de toque do fenómeno estético – não é uma “cor” mas sim o produto composto de várias cores primárias. Isto é, não existe “menos cor” que o branco – este é um composto; seria, numa perspectiva da linguagem socio-racial corrente, um “mulato”. De tal assim é que se for decomposta o que se verá é o que denominamos de “arco-iris”.A problemática da cor entronca-se num facto naturalístico: olho humano – em particular a retina –, é um órgão com uma capacidade limitada de recepção quer da luz quer da energia externas que lhe dão a percepção de “cor” e a retransmite ao cérebro humano.Essa capacidade do olho humano está limitada a percepcionar a emissão da luz compreendida entre os 400 e 700 milimicrons (unidade de medida da extensão da frequência: microns (u) e milimicrons (mu) ou nanometros (nm). Um micron (u) equivale a um milésimo de milímetro, isto é: (u = 1/1OOOmm) e um milimicron ou nanometro equivale a um milhonéssimo de milímetro [mm], ou seja: (mu = 1/000000mm) e que determina a percepção da cor. Consoante a frequência ou a extensão do espectro eletromagnético, assim será a “cor”. Assim, existem dois extremos de percepção da luz e que nos diz o que é a cor. Num extremo está o vermelho (718,5 milimicrons) e no outro a violeta (variando entre os 393,4 a 486,1 milimicrons).Por estes valores se pode verificar que, além da extraordinária pequenez da unidade de medida, a violeta é a “cor” de frequência ou intensidade mais baixa dentro do espectro de percepção do olho humano – a dita visão (ide barra de frequência). O preto não se encontra nesta escala, pois é ausência de “cor”.Mas porque se conclui que o preto é ausência de cor? Tal resulta de um raciocínio dedutivo, de uma inferência da razão: sendo a cor violeta aquela que mais se aproxima do “preto”, e sendo ela a de menor frequência ou comprimento de onda, a conclusão necessária é de que “o preto não existe” enquanto cor, é espaço neutral, uma ausência de cor que absorve todas as demais.Mas se é assim – numa perspectiva compreensiva do social na sua dimensão étnica e racial (como é comum fazer-se) –, se sou “preto”, não sou percebido pelo meu semelhante. Se não sou percebido, não existo (para usar o juízo de Berkeley). Assim, quando me chamam “preto”, negam-me a existência – seria e é a conclusão natural.É a negação do humano pelo humano; a negação da dimensão de pessoa (personae, prosopon= o papel desempenhado no mundo) ao ser que negamos a existência. É negação da personalidade – sujeito social de direitos e obrigações – ao “preto”; é, na verdade, remetê-lo à condição de objecto, de” não pessoa”, de “não ser”.Nesta perspectiva, chamar alguém de “preto” é, sem dúvida um profundo opróbrio e não pode nem deve(rá) ser tolerado. Mas isso tem subjacente uma premissa: quem me chama “preto” sabe(rá) do que estou aqui a ditirambar, sabe o que diz? Tenho, neste aspecto uma dúvida metódica que necessita de uma probatio diaboli para ser ilidida.Sabe(rá), quem me chama preto, que “preto” não existe para ela, que não é capaz, nem chega para saber o que é e o que não é “preto”? Se chegar, saberá, então, que o preto é o ventrículo central da percepção – a amante da luz e para onde tudo converge e que chamar-me preto é, das duas uma: ou tentar negar a minha existência ou um juízo falho de cultura.O que sei, sim, é que existo. Estou aqui e ninguém chega ou é capaz de negar-me essa condição – pode até tentar; mas o que sou, sou. “Preto”? Não me importo de ser cognominado de “aquele que absorve a luz”, não; agora, qualquer tentativa de me negar a existência esbarra, naturalmente, num “daqui d´El Rei”.A ignorância e a falta de cultura são, certamente, os maiores males de que a natureza humana sofre, pois são as principais alimentadoras do mal radical. A individualidade do outro é, necessariamente – seguindo o imperativo categórico kantiano –, o limite.Agora, subvertendo este ditirambo, sempre diria que um homem esclarecido e que tentasse negar-me – com o “preto” – poderia fazê-lo para si mesmo: basta(ria) usar o juízo de Leibnitz: esse est percipi (ser [existir] é ser percebido). Aí sim, poderia negar-me para si – remetendo-me para o limbo da sua percepção –, mas tal implica(ria), necessariamente, subverter, de todo, o pensamento do bispo Leibnitz. Nada mudaria para mim, o que poderia mudar era a sua felicidade; sendo certo que, digo com os antigos, nenhum crime pode ser justificado pela razão (Tito Lívio, XXVIII.28).Viver na e da falácia discursiva ou de alma é, também, um direito; assim como o direito à asneira ou a ser inculto e ser-se feliz com isso. Há muitas “velhas” por aí – diria hoje, repristinadamente assombrado, Voltaire e muitas dores, na perspectiva de Salomão.É, para pessoas assim só nos resta ter a mesma atitude que Jean Valjean teve para com o “mal” encarnado no Inspector Javert (vide, Os Miseráveis, Victor Hugo): praticar o bem, não usar a lei de Talião, quer nas acções quer nas palavras. Tem custos, não raras vezes demasiados (como a de Jean Valjean para com um injusto defensor da “justiça” – Marius), mas que no aproxima do do mais humano que existe em nós.E quando não se consegue negar o outro, nega-se a existência daquilo que o nega; isto é, os Estados e/ou os racistas, os xenófobos e os aporofóbicos negam a existência do racismo, da xenofobia e da aparofobia como realidade (como irá, infelizmente, acontecer com muitos Estados na Conferência de Durban de 2009).E escrevo isto a pensar nos chamados “mandjakus” – vítimas de xenofobia na minha terra e de exemplos de promoção do racismo impune vindas do próprio parlamento nacional: um deputado a chamar o outro de preto... Facto que tem um sabor particularmente amargo por acontecer num país africano e dito por um representante de uma nação de gente que sofre o estigma do “preto”.

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